A Igreja de Nossa Senhora das Neves, também conhecida como Santuário das Neves, constitui um dos mais antigos templos católicos do Espírito Santo, estando diretamente vinculada ao processo de colonização e à atuação da Companhia de Jesus no litoral sul capixaba.
A origem do núcleo religioso remonta ao final do século XVI. Relatos históricos e tradições locais indicam que, por volta de 1581, missionários jesuítas, possivelmente sob a orientação do Padre Almada, estabeleceram na região de Muribeca uma primeira capela destinada à catequese indígena e ao apoio das atividades missionárias e agrícolas. Essa estrutura inicial, construída com materiais perecíveis, inseria-se no contexto da expansão das missões iniciadas a partir de 1549, com a chegada da Companhia de Jesus ao Brasil, e consolidadas no Espírito Santo entre 1551 e 1560, com a implantação de aldeamentos e fazendas.
A localização de Muribeca, entre o litoral e o vale do Itabapoana, apresentava caráter estratégico, permitindo integração entre áreas costeiras e o interior, favorecendo a logística missionária e produtiva. Ao longo do século XVII, a região foi progressivamente ocupada, consolidando-se a Fazenda Muribeca como importante centro religioso, administrativo e econômico vinculado aos jesuítas.
A edificação atual da igreja teve início no final do século XVII, sendo construída entre aproximadamente 1680 e 1730, com registros de consolidação em alvenaria no ano de 1694. A obra utilizou técnicas construtivas coloniais, com emprego de pedra, cal, areia, madeira e óleo de baleia, característica das edificações missionárias. Sua execução contou com a atuação de jesuítas, mão de obra indígena catequizada e colonos locais, refletindo a integração entre conhecimento construtivo europeu e saberes locais.
Implantada sobre uma elevação na planície de Muribeca, com vista para o mar, a igreja possui não apenas função estratégica, mas também simbólica, associada à ideia de proteção espiritual e domínio visual da paisagem.
Por volta de 1750, registra-se a chegada da imagem de Nossa Senhora das Neves, proveniente de Portugal, fato que intensificou a devoção mariana e estruturou definitivamente o culto local. A partir desse período, a festa religiosa passa a ser organizada de forma contínua, com novenas, celebrações coletivas e manifestações comunitárias.
Com a expulsão da Companhia de Jesus em 1759, a Fazenda Muribeca foi transferida para administração civil em 1761, mantendo-se, entretanto, as práticas religiosas e a devoção popular. Durante o século XIX, a festa se consolida como principal evento religioso regional, ampliando a participação de trabalhadores rurais, viajantes e comunidades vizinhas, além de incorporar práticas devocionais como promessas, ex-votos e confraternizações.
Registros históricos e tradição oral indicam a ocorrência de incêndios e danos estruturais ao longo do tempo. Destaca-se um episódio no século XIX, seguido de reconstrução comunitária, evidenciando o papel central da população local na preservação do templo.
Entre 1900 e 1948, a igreja e a festa mantiveram-se ativas mesmo em contexto de relativo isolamento, sustentadas pela organização comunitária e transmissão oral das tradições. Em 1949, ocorre o primeiro registro técnico sistematizado, realizado por André Carloni, incluindo levantamento fotográfico e diagnóstico estrutural.
Em 1951, o IPHAN promove a primeira restauração de caráter técnico, abrangendo cobertura, paredes, rebocos e elementos artísticos. Contudo, em 1964, um incêndio provocado por velas danificou parte da estrutura, exigindo adaptações nas celebrações entre 1965 e 1966, que foram mantidas em espaços provisórios.
A partir da década de 1970, observa-se a retomada e fortalecimento das atividades religiosas, com ampliação das procissões e participação regional. Entre 1990 e 2000, a festa passa por processo de reestruturação com apoio do poder público, incluindo melhorias de infraestrutura e incorporação de atividades culturais.
No campo da preservação patrimonial, a igreja foi tombada em nível municipal em 1995 e estadual em 2008, sendo reconhecida como Patrimônio Histórico e Artístico do Espírito Santo. Também integra inventários relacionados à rota jesuítica e a sítios históricos associados à presença missionária no litoral sul.
Arquitetonicamente, o templo representa um importante exemplar da arquitetura religiosa colonial. Sua fachada simples, com frontão triangular e campanário lateral, expressa a estética jesuítica, marcada pela sobriedade e equilíbrio proporcional. O interior preserva elementos originais, como altares barrocos, imagens sacras — incluindo a imagem de Nossa Senhora das Neves trazida de Portugal — além de características construtivas típicas, como janelas em arco e altar-mor restaurado.
Durante os anos de 2012 e 2013, foram realizados estudos técnicos abrangentes, incluindo levantamentos históricos, arquitetônicos e diagnósticos de conservação. Entre 2016 e 2019, houve fortalecimento das ações pastorais e ampliação da participação de jovens, mantendo-se os rituais tradicionais.
No período da pandemia de Covid-19 (2020–2021), a festa foi adaptada com restrições presenciais e transmissões remotas, assegurando sua continuidade.
Mais recentemente, em 2024, a Festa de Nossa Senhora das Neves foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Espírito Santo, por meio da Lei nº 12.169, consolidando seu valor histórico, religioso e sociocultural.
Na atualidade, a igreja e sua festividade permanecem como elementos centrais da identidade regional, configurando-se como patrimônio vivo, sustentado pela fé, pela memória coletiva e pela participação contínua da comunidade.
